A profundidade das luzes e a intensidade dos sons, a ternura
e a agressividade dos cheiros, os gestos, ensaiados e precisos, olhares programados
e preparados para o único e comum objetivo: a exposição e a oferta, a procura e
o lance. O bote certeiro.
O preciso e fidelíssimo balé, expressão mais pura e viva da
natureza em toda a sua intensidade. Dança intensiva e de interesses. Gargalhadas
e conversas em extenuantes decibéis. Vãs tentativas de sobrepor à sonoridade do
trio que se diz banda, enquanto deslocam, com repertório cansativo, cruel e
cafona o que deveria ser o ar silencioso do palco de boa e prazerosa fala e
música..
Senhores calvos e alvos, protuberantes de abdome e aparência
de paizões de todos. Caçadores estabelecendo conivências e conveniências,
pertinências e álibis, que revelam suas condições civis, delatadas pelos brilhos
dourados que circundam os dedos anulares das mãos esquerdas. Alguém, com o
mesmo brilho dourado, espelho da promessa no altar, procura, insistentemente,
em vão. Quando não. No plural, porque são.
De celulares vibrantes, luzes silenciosas, trazem à
lembrança que há expiração da auto concedida permissão.
Jovens executivos, advogados, médicos, pedreiros, mecânicos,
auxiliares de toda sorte, desempregados e aposentados deslumbrados, satisfeitos
com as possibilidades feromônicas, revestidos em atitudes não comuns à identidade
real de cada ser, despertavam e dividiam as atenções, também, de olhares
voluptuosos de corpos idênticos.
Meninos e meninas, não mais crianças, com tênis curtos,
encardidos e baixos, jeans rasgados, cuecas à mostra, camisetas amarrotadas e
estampadas com motivos heavy-metal, tatoos manchados, em bandos ou
solitariamente isolados, adolescentes, lotados de espinhas e com olhares espantados,
ávidos e possuidores de incandescentes e latejantes hormônios.
Pulsando ainda na transição infanto-juvenil-homem-mulher, perscrutando
cada palmo, gesto, coxa, curva, peito, pele, ombros, mãos...
A emboscadas, o propósito, a displicência e a presa.
Mulheres de todas as cores, raças (castas?), cheiros e
texturas, com veladas, disfarçadas e discretas vontades de conquistas, enfeitadas,
do salto à presilha, como arapucas, na clara intenção de caçar, pegar e comer.
Ao primeiro sinal de sangue, que retira da terra da
inocência, levando a um mundo cada vez mais misterioso, vivenciam, por serem
recentes mulheres, a contemplação do centro do universo.
De percepção panorâmica, diferentes dos homens, sem a necessidade
de extensos espaços para o mapeamento local, através de imperceptíveis passeios
visuais, a elegância e a classe mantém a convergência das atenções.
Com aparentes e dissimulados interesses de ali estarem,
estão.

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