sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

SELVA URBANA

A profundidade das luzes e a intensidade dos sons, a ternura e a agressividade dos cheiros, os gestos, ensaiados e precisos, olhares programados e preparados para o único e comum objetivo: a exposição e a oferta, a procura e o lance. O bote certeiro.
O preciso e fidelíssimo balé, expressão mais pura e viva da natureza em toda a sua intensidade. Dança intensiva e de interesses. Gargalhadas e conversas em extenuantes decibéis. Vãs tentativas de sobrepor à sonoridade do trio que se diz banda, enquanto deslocam, com repertório cansativo, cruel e cafona o que deveria ser o ar silencioso do palco de boa e prazerosa fala e música..
Senhores calvos e alvos, protuberantes de abdome e aparência de paizões de todos. Caçadores estabelecendo conivências e conveniências, pertinências e álibis, que revelam suas condições civis, delatadas pelos brilhos dourados que circundam os dedos anulares das mãos esquerdas. Alguém, com o mesmo brilho dourado, espelho da promessa no altar, procura, insistentemente, em vão. Quando não. No plural, porque são.
De celulares vibrantes, luzes silenciosas, trazem à lembrança que há expiração da auto concedida permissão.
Jovens executivos, advogados, médicos, pedreiros, mecânicos, auxiliares de toda sorte, desempregados e aposentados deslumbrados, satisfeitos com as possibilidades feromônicas, revestidos em atitudes não comuns à identidade real de cada ser, despertavam e dividiam as atenções, também, de olhares voluptuosos de corpos idênticos.
Meninos e meninas, não mais crianças, com tênis curtos, encardidos e baixos, jeans rasgados, cuecas à mostra, camisetas amarrotadas e estampadas com motivos heavy-metal, tatoos manchados, em bandos ou solitariamente isolados, adolescentes, lotados de espinhas e com olhares espantados, ávidos e possuidores de incandescentes e latejantes hormônios.
Pulsando ainda na transição infanto-juvenil-homem-mulher, perscrutando cada palmo, gesto, coxa, curva, peito, pele, ombros, mãos...
A emboscadas, o propósito, a displicência e a presa.
Mulheres de todas as cores, raças (castas?), cheiros e texturas, com veladas, disfarçadas e discretas vontades de conquistas, enfeitadas, do salto à presilha, como arapucas, na clara intenção de caçar, pegar e comer.
Ao primeiro sinal de sangue, que retira da terra da inocência, levando a um mundo cada vez mais misterioso, vivenciam, por serem recentes mulheres, a contemplação do centro do universo.
De percepção panorâmica, diferentes dos homens, sem a necessidade de extensos espaços para o mapeamento local, através de imperceptíveis passeios visuais, a elegância e a classe mantém a convergência das atenções.
Com aparentes e dissimulados interesses de ali estarem, estão.

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