Doeu pra caramba aquela
espetada no dedo médio, assim que sentei no sofá de napa da minha avó. Pelo que
recordo, o velho sofá acompanhava minha avó desde minha infância. Ao longo do
tempo o mesmo havia recebido reformas em toda a sua estrutura. Mas ainda
continuava o mesmo... Não era dos mais macios, mas concedia um pouco de
conforto e permitia extensos momentos para a observação da parte interna das
pálpebras.
Lembro-me de quando minha avó,
com seus embaçados óculos apoiados na ponta do nariz, sentava no sofá para ler
a bíblia. Chegava a dormir, quando mais, babar até.
Após uma refeição (comida de
avó é uma das coisas melhores deste mundo), era no sofá que ela palitava seus
dentões. Até hoje, os dentes que lhe restam são tão grandes que parecem de
cavalo. Que coisa, enquanto palitava seus dentões, chegava a roncar quando o
sono batia.
Num belo dia, assim que
cheguei à casa da minha avó, fui logo deitar-me no sofá. Pra que?
Ao apoiar a mão para me
ajeitar, recebi uma espetada no dedo médio da mão esquerda. Quase um centímetro
de alfinete enferrujado embaixo da unha me obrigava a dar urros de dor em
altura que a vizinhança toda deve ter ouvido.
Uma espetada embaixo da unha
é coisa feia. Raiva com vontade de chorar tomaram conta do corpo todo.
E o medo danado daquela
espetada se transformar em tétano.
Todo mundo dizia pra que eu
fosse ao médico retirar o alfinete espetado.
- Ferrugem é uma coisa
perigosa. Era o que se ouvia o tempo todo. Não fui ao médico. Fiquei ali tentando
tomar coragem para puxá-lo de vez e acabar com aquele sofrimento. Não saía
sangue e ficava mais cada vez mais roxo e mais inchado. Molhei o dedo na
torneira do tanque e fui puxando o alfinete bem devagarinho.
Pelo amor de Deus. Aquilo era
dor? Não. Não era. Dor era uma espécie de cócegas, comparada àquilo que parecia
ser mais a tortura da alma penada do que uma espetada de qualquer coisa
qualquer.
Mas, nesta vida a gente descobre, mesmo sem querer, certas coisas que não entende: até hoje, não consegui distinguir se aquela
dor tão doída era maior que a do dia em que levei uma bolada no saco. Acho
que em intensidade, em grau de "dorcência", as duas tragédias se equiparam.
Quem aqui já levou uma bolada
estupidamente certeira bem no meio das bolas, que levante a mão esquerda (porque a direita estará tentando quase relar nas sofridas pelotas, na tentativa de amenizar a dor). Quem
nunca levou, fica tranquilo e relaxa (pra ir treinando), pois, mais dias ou menos
dias terá essa triste e desagradável experiência. Quem tem saco viverá pra ver.
Quando isso acontecer e sentir
suas bolas saltando pela garganta ou despencando reto abaixo, você verá que não
existe mais nada pra fazer a não ser relaxar.
Não é praga não. É estatística pura: quem levou uma bolada no saco tem
exatamente a mesma chance de levar outra. Quem nunca levou, não está em
desvantagem (vantagem?) em relação a quem já foi carimbado. Logo, logo, receberá uma bolada
tão decidida no meio do depósito das proles futuras que terá histórias para
contar até sua quinta geração.
Claro, conforme a dimensão do estrago e caso sua geração consiga se fazer presente para apreciar o nascer do sol deste mundo tenebroso.
Claro, conforme a dimensão do estrago e caso sua geração consiga se fazer presente para apreciar o nascer do sol deste mundo tenebroso.
Então. Como estava dizendo,
sem exageros, só de pensar em tirar o alfinete já doía.
Vou resumir os capítulos
lengalengas dessa novela mexicana. Fechei os olhos e (AAARGHH!) tirei o
alfinete.
Simples assim.
Simples assim.
Mas, meu Deus, eu tinha
certeza de estar morrendo.
Se o ensaio pra retirar o
alfinete havia doído, a retirada de fato deu vontade de fazer o número dois da
escala das necessidades fisiológicas (pra não dizer cagar). Depois desse fato,
encalacrou-se em mim a convicção de que quando alguém está em agonia no seu
leito de morte deve sentir uma dor semelhante a do alfinete do dedo.
Acreditei que aquele sofrimento
cessasse tão logo o alfinete fosse retirado do dedo. Mas não, continuou
latejando por umas três horas mais, mesmo depois de eu ter tomado um litro e
meio de analgésico...
Você que aqui divaga deve estar perguntando do porque todo esse drama por causa de um simples alfinete enferrujado
enfiado no dedo. Eu te respondo: simples alfinete enferrujado porque não foi no seu
dedo, seu filho de uma... Bituca no ( . ) dos outros é brisa.
Após o suplício que parecia
eterno, preciso fazer uma confissão que é mais uma constatação: nada é para
sempre, mesmo as coisas mais tristes da vida. Ainda bem. E ainda afirmo que uma
das sensações mais gostosas desse mundo é quando se está com uma dor quase
insuportável e esta vai sumindo, sumindo...
Quer uma prova de como isso se
dá? Quer mesmo? Então, vamos lá, pegue um martelo e coloque o seu dedo
indicador sobre uma mesa. Agora dê uma martelada bem certeira na ponta da unha,
com bastante força.
Uma vontade louca de alijar um excremento é a prova de que martelou pra valer.
Fica tranquilo porque é assim mesmo. Agora espere apenas alguns minutinhos e você perceberá que a dor vai perdendo sua intensidade, até chegar ao ponto em que o que era desagradável vai se tornando gostoso e prazeroso. Uma delícia. Experimente! Tenho certeza que vai gostar.
Uma vontade louca de alijar um excremento é a prova de que martelou pra valer.
Fica tranquilo porque é assim mesmo. Agora espere apenas alguns minutinhos e você perceberá que a dor vai perdendo sua intensidade, até chegar ao ponto em que o que era desagradável vai se tornando gostoso e prazeroso. Uma delícia. Experimente! Tenho certeza que vai gostar.
Voltando ao ritmo do
relato... Momentos depois, passado todo o sentimento de que pobre não tem sorte
e que Deus não ajuda, dirigi-me ao sofá e arranquei seu assento. O que tinha de
tranqueiras entre os vãos, acredito que nem Deus sabia.
A casa de minha avó era sempre
cheia de crianças. Com o tempo, de tanto a molecada subir, pular, babar e
borrar naquele sofá, o mesmo encheu-se de porcarias.
Desde tesoura, gibis, livros, farelo de pão, pipoca, casca de laranja seca, semente de abóbora, grampo, uma receita de pudim, bala de caramelo, tampinha de tubaína, envelope de carta, um lápis azul, um calendário de bolso de "mulher pelada”, algumas moedas, um floco de algodão com mercúrio seco, papéis para presentes, um brinco de ouro, um fivela de sapato, um binóculo com foto de minha prima Vera, cocô de rato, uma lista telefônica, caneta, asa de barata, alfinetes enferrujados... Tinha até um ratinho morto, esturricadamente esquelético. Além de um cachecol, e cacharréu da minha avó, o pé direito de uma sandália Havaianas, uma bituca de cigarro, uma foto 3 x 4 de meu falecido avô e teias de aranhas em bicas e cachoeiras.
Desde tesoura, gibis, livros, farelo de pão, pipoca, casca de laranja seca, semente de abóbora, grampo, uma receita de pudim, bala de caramelo, tampinha de tubaína, envelope de carta, um lápis azul, um calendário de bolso de "mulher pelada”, algumas moedas, um floco de algodão com mercúrio seco, papéis para presentes, um brinco de ouro, um fivela de sapato, um binóculo com foto de minha prima Vera, cocô de rato, uma lista telefônica, caneta, asa de barata, alfinetes enferrujados... Tinha até um ratinho morto, esturricadamente esquelético. Além de um cachecol, e cacharréu da minha avó, o pé direito de uma sandália Havaianas, uma bituca de cigarro, uma foto 3 x 4 de meu falecido avô e teias de aranhas em bicas e cachoeiras.
A cara que minha avó fez,
quando do achado de tais 'preciosidades', não dá pra descrever. Era algo assim
próximo do espanto e do maravilhoso. Jamais imaginou que embaixo daquele sofá houvesse vida..
Com o dedo mais que dolorido, fiz uma proposta irrecusável para minha avó. Tão irrecusável, que ela não
recusou:
- Vó, se vender esse sofá, compro-lhe um novinho em folha. Mal terminei a fala, ela topou sem pestanejar.
Trato feito, fui embora pra minha casa. Minha avó ficou de providenciaria o sumiço do sofá. Naquela época, as pessoas valorizavam melhor o que tinham. Jamais se via um sofá, em plenas condições de uso, jogado pelas calçadas ou terrenos baldios conforme o relaxo e a falta de civilidade do povo de hoje.
Trato feito, fui embora pra minha casa. Minha avó ficou de providenciaria o sumiço do sofá. Naquela época, as pessoas valorizavam melhor o que tinham. Jamais se via um sofá, em plenas condições de uso, jogado pelas calçadas ou terrenos baldios conforme o relaxo e a falta de civilidade do povo de hoje.
No outro dia de manhã minha
avó liga no meu trabalho falando que a sala estava vazia, e que acabara de vender o sofá. Que era pra eu cumprir com o prometido. Não imaginei que
ela fosse agir tão rápido assim, portanto, combinamos nos encontrar no
horário do almoço, na loja que ela queria.
O primeiro sofá que viu, gostou e pedimos pra entregar.
O primeiro sofá que viu, gostou e pedimos pra entregar.
Naquele dia iríamos, eu e
minha esposa, jantar na casa da sogra.
Para minha surpresa, assim que entrei na sala, vi o reluzente sofá da minha avó, todo imponente.
Minha sogra, escarrapachada de alegria no sofá, foi logo contando do excelente negócio que fez em adquirir a relíquia da minha avó...
Para minha surpresa, assim que entrei na sala, vi o reluzente sofá da minha avó, todo imponente.
Minha sogra, escarrapachada de alegria no sofá, foi logo contando do excelente negócio que fez em adquirir a relíquia da minha avó...
- Vou reformá-lo, trocar o
tecido e dar um trato na madeira. Dizia toda feliz.
Nesse momento, senti uma latejada
no dedo só de pensar que aquele sofá me acompanharia por mais alguns anos...
Por não saber se ria ou chorava... Chorei, claro.
Por não saber se ria ou chorava... Chorei, claro.

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