sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O SOFÁ



Doeu pra caramba aquela espetada no dedo médio, assim que sentei no sofá de napa da minha avó. Pelo que recordo, o velho sofá acompanhava minha avó desde minha infância. Ao longo do tempo o mesmo havia recebido reformas em toda a sua estrutura. Mas ainda continuava o mesmo... Não era dos mais macios, mas concedia um pouco de conforto e permitia extensos momentos para a observação da parte interna das pálpebras.

Lembro-me de quando minha avó, com seus embaçados óculos apoiados na ponta do nariz, sentava no sofá para ler a bíblia. Chegava a dormir, quando mais, babar até.
Após uma refeição (comida de avó é uma das coisas melhores deste mundo), era no sofá que ela palitava seus dentões. Até hoje, os dentes que lhe restam são tão grandes que parecem de cavalo. Que coisa, enquanto palitava seus dentões, chegava a roncar quando o sono batia.

Num belo dia, assim que cheguei à casa da minha avó, fui logo deitar-me no sofá. Pra que?
Ao apoiar a mão para me ajeitar, recebi uma espetada no dedo médio da mão esquerda. Quase um centímetro de alfinete enferrujado embaixo da unha me obrigava a dar urros de dor em altura que a vizinhança toda deve ter ouvido.

Uma espetada embaixo da unha é coisa feia. Raiva com vontade de chorar tomaram conta do corpo todo.

E o medo danado daquela espetada se transformar em tétano.

Todo mundo dizia pra que eu fosse ao médico retirar o alfinete espetado.
- Ferrugem é uma coisa perigosa. Era o que se ouvia o tempo todo. Não fui ao médico. Fiquei ali tentando tomar coragem para puxá-lo de vez e acabar com aquele sofrimento. Não saía sangue e ficava mais cada vez mais roxo e mais inchado. Molhei o dedo na torneira do tanque e fui puxando o alfinete bem devagarinho.

Pelo amor de Deus. Aquilo era dor? Não. Não era. Dor era uma espécie de cócegas, comparada àquilo que parecia ser mais a tortura da alma penada do que uma espetada de qualquer coisa qualquer.

Mas, nesta vida a gente descobre, mesmo sem querer, certas coisas que não entende: até hoje, não consegui distinguir se aquela dor tão doída era maior que a do dia em que levei uma bolada no saco. Acho que em intensidade, em grau de "dorcência", as duas tragédias se equiparam.
Quem aqui já levou uma bolada estupidamente certeira bem no meio das bolas, que levante a mão esquerda (porque a direita estará tentando quase relar nas sofridas pelotas, na tentativa de amenizar a dor). Quem nunca levou, fica tranquilo e relaxa (pra ir treinando), pois, mais dias ou menos dias terá essa triste e desagradável experiência. Quem tem saco viverá pra ver.

Quando isso acontecer e sentir suas bolas saltando pela garganta ou despencando reto abaixo, você verá que não existe mais nada pra fazer a não ser relaxar.  Não é praga não. É estatística pura: quem levou uma bolada no saco tem exatamente a mesma chance de levar outra. Quem nunca levou, não está em desvantagem (vantagem?) em relação a quem já foi carimbado. Logo, logo, receberá uma bolada tão decidida no meio do depósito das proles futuras que terá histórias para contar até sua quinta geração.

Claro, conforme a dimensão do estrago e caso sua geração consiga se fazer presente para apreciar o nascer do sol deste mundo tenebroso.

Então. Como estava dizendo, sem exageros, só de pensar em tirar o alfinete já doía.
Vou resumir os capítulos lengalengas dessa novela mexicana. Fechei os olhos e (AAARGHH!) tirei o alfinete. 

Simples assim.

Mas, meu Deus, eu tinha certeza de estar morrendo.
Se o ensaio pra retirar o alfinete havia doído, a retirada de fato deu vontade de fazer o número dois da escala das necessidades fisiológicas (pra não dizer cagar). Depois desse fato, encalacrou-se em mim a convicção de que quando alguém está em agonia no seu leito de morte deve sentir uma dor semelhante a do alfinete do dedo.

Acreditei que aquele sofrimento cessasse tão logo o alfinete fosse retirado do dedo. Mas não, continuou latejando por umas três horas mais, mesmo depois de eu ter tomado um litro e meio de analgésico...

Você que aqui divaga deve estar perguntando do porque todo esse drama por causa de um simples alfinete enferrujado enfiado no dedo. Eu te respondo: simples alfinete enferrujado porque não foi no seu dedo, seu filho de uma... Bituca no ( . ) dos outros é brisa.

Após o suplício que parecia eterno, preciso fazer uma confissão que é mais uma constatação: nada é para sempre, mesmo as coisas mais tristes da vida. Ainda bem. E ainda afirmo que uma das sensações mais gostosas desse mundo é quando se está com uma dor quase insuportável e esta vai sumindo, sumindo...

Quer uma prova de como isso se dá? Quer mesmo? Então, vamos lá, pegue um martelo e coloque o seu dedo indicador sobre uma mesa. Agora dê uma martelada bem certeira na ponta da unha, com bastante força.

Uma vontade louca de alijar um excremento é a prova de que martelou pra valer.

Fica tranquilo porque é assim mesmo. Agora espere apenas alguns minutinhos e você perceberá que a dor vai perdendo sua intensidade, até chegar ao ponto em que o que era desagradável vai se tornando gostoso e  prazeroso. Uma delícia. Experimente! Tenho certeza que vai gostar.

Voltando ao ritmo do relato... Momentos depois, passado todo o sentimento de que pobre não tem sorte e que Deus não ajuda, dirigi-me ao sofá e arranquei seu assento. O que tinha de tranqueiras entre os vãos, acredito que nem Deus sabia.

A casa de minha avó era sempre cheia de crianças. Com o tempo, de tanto a molecada subir, pular, babar e borrar naquele sofá, o mesmo encheu-se de porcarias.

Desde tesoura, gibis, livros, farelo de pão, pipoca, casca de laranja seca, semente de abóbora, grampo, uma receita de pudim, bala de caramelo, tampinha de tubaína, envelope de carta, um lápis azul, um calendário de bolso de "mulher pelada”, algumas moedas, um floco de algodão com mercúrio seco, papéis para presentes, um brinco de ouro, um fivela de sapato, um binóculo com foto de minha prima Vera, cocô de rato, uma lista telefônica, caneta, asa de barata, alfinetes enferrujados... Tinha até um ratinho morto, esturricadamente esquelético. Além de um cachecol, e cacharréu da minha avó, o pé direito de uma sandália Havaianas, uma bituca de cigarro, uma foto 3 x 4 de meu falecido avô e teias de aranhas em bicas e cachoeiras.

A cara que minha avó fez, quando do achado de tais 'preciosidades', não dá pra descrever. Era algo assim próximo do espanto e do maravilhoso. Jamais imaginou que embaixo daquele sofá houvesse vida..

Com o dedo mais que dolorido, fiz uma proposta irrecusável para minha avó. Tão irrecusável, que ela não recusou:

- Vó, se vender esse sofá, compro-lhe um novinho em folha. Mal terminei a fala, ela topou sem pestanejar.

Trato feito, fui embora pra minha casa. Minha avó ficou de providenciaria o sumiço do sofá. Naquela época, as pessoas valorizavam melhor o que tinham. Jamais se via um sofá, em plenas condições de uso, jogado pelas calçadas ou terrenos baldios conforme o relaxo e a falta de civilidade do povo de hoje.

No outro dia de manhã minha avó liga no meu trabalho falando que a sala estava vazia, e que acabara de vender o sofá. Que era pra eu cumprir com o prometido. Não imaginei que ela fosse agir tão rápido assim, portanto, combinamos nos encontrar no horário do almoço, na loja que ela queria.

O primeiro sofá que viu, gostou e pedimos pra entregar.

Naquele dia iríamos, eu e minha esposa, jantar na casa da sogra.

Para minha surpresa, assim que entrei na sala, vi o reluzente sofá da minha avó, todo imponente.
Minha sogra, escarrapachada de alegria no sofá, foi logo contando do excelente negócio que fez em adquirir a relíquia da minha avó...

- Vou reformá-lo, trocar o tecido e dar um trato na madeira. Dizia toda feliz.

Nesse momento, senti uma latejada no dedo só de pensar que aquele sofá me acompanharia por mais alguns anos... 

Por não saber se ria ou chorava... Chorei, claro.

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