quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

UM TAPINHA NÃO DÓI ("Agora ficou bonito")

A postagem abaixo, entre todas deste blog, pela primeira vez, é reprisada por razões óbvias:  Lei da Palmada.
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Quando minha irmã, a mais velha, chegou em casa de volta da escola, estava toda eufórica por ter descoberto uma coisa diferente e que tanto ansiava em nos mostrar. Chamou-nos, eu, o Zete, a Lita e o Naor para um canto da casa e arregaçando a manga esquerda de sua blusa, lá estava:  no fino braço, seu nome em caixa alta, ANGELA, num pequeno relevo avermelhado. Cada letra tinha mais ou menos 20 milímetros de altura.
- Isso aqui eu aprendi na escola. Faz-se assim, primeiro escreve seu nome com caneta BIC, depois passa bem de leve o lápis sobre a tinta. Percebe que quando se passa o lápis, a pele sensível incha um pouquinho, criando um leve vergãozinho. Olhem só, fica parecendo uma tatuagem. Viram como á fácil?
Nossos inocentes olhinhos brilharam naquele momento das cortinas que se abriram para a grande novidade.
A Angela nos explicava a descoberta, escrevendo no braço do Zete, DONIZETE. Aquilo nos encantou. Cada um pegou uma caneta e começou o escrevinhamento. Meu nome, DINOR, logo apareceu no meu braço. Após trabalhar direitinho com a BIC, o lápis de grafite preto começou a delinear o rastro de vergão. Como eu não sabia a pressão que se deveria aplicar ao lápis sobre a tinta na pele, creio que, pelo efeito que surgia em meu braço, estava forçando um pouco além. Percebi, a cada passada do lápis, que uma fina camada de pele era retirada. Não doía e dava uma aparência diferente da que vimos no braço da Angela. Em instantes, antes de terminar todas as letras do meu nome, DIN já estava inchado. Quando meus irmãos viram aquilo, mais bonito e charmoso que o que a Angela havia mostrado, se interessaram em fazer igual, apertando mais ainda o lápis sobre as letras. Ou seja, eu havia, em questão de minutos, aperfeiçoado a técnica da Angela.
Estávamos satisfeitos com as tatuagens com nossos nomes. Mostramos para todos os meninos e meninas da Colônia do Pepino. No final daquele dia muitos meninos e meninas tinham seus nomes inchados em seus braços.
Quando o pai chegou do trabalho, fomos mostrar-lhe a descoberta. Pra que?
Após um ensaboado sermão:
- Mas o que é que vocês têm na cabeça pra fazer um coisa dessa? Vocês não sabem que bandido é quem usa tatuagem? Sabiam que a polícia poderá prendê-los se descobrir isso em seus braços? Quem que ensinou isso pra vocês?
Mesmo se houvéssemos ensaiado, o coro de vozes infantis, uníssono, não sairia tão perfeito e sincronizado:

- Foi a Angela pai...
- Eu?... Foi o Di, pai...
- Mentira pai... A Angela aprendeu na escola e nos ensinou.
- Mas foi você quem o transformou (aperfeiçoou) desse jeito.
- Angela... Disse serenamente meu pai -  ... pegue lá, o fio...
Assim que ouvimos a palavra fio, o desespero e o pampeiro tomou conta de todos.
Quantas letras têm no seu nome Angela?
- Seis letras paaiiiiiii....
Mal terminara de responder, o fio do ferro de passar roupa passeava pelo seu ombro.
- Vai pra lá, Angela... Zete... Venha cá!
- Si-sim, pai...
- Quantas letras têm em seu nome?
- Me deixa ver pai... (Contendo o choro) DO-NI-ZE-TE... Sete... Oito letras pai...
Naquele momento todos já havíamos feito a contagem mental de quantas letras compunham os nomes de cada um. Com certeza, percebendo o que viria, o Naor (NAOR) dava gargalhadas por dentro. Eu cá, com minhas cinco letrinhas, não sabia se chorava ou ria. Claro, quando a primeira lambada deixou um vergão em minhas costas, a dúvida não mais existia. O choro e a gritaria tomaram conta do recinto.
Após todos levarem a primeira lambada de fio, retornávamos para a segunda e assim sucessivamente até completar a quantidade de letras de cada nome. Cada letra, uma inesquecível lambada.
Enquanto a Lita (ANGELITA) estava ainda na metade da sua sova, junto com o Zete, o Naor com certeza já nem lembrava mais do acontecido. Em meu precioso couro ainda faltava umazinha...
Enfim... Foi uma surra de primeira, pra ninguém botar defeito. Naquela noite fomos dormir com o lombo em fogo.
No outro dia de manhã, prontos para a escola, pra mal dos nossos pecados, tínhamos que passar em frente à delegacia da Polícia Civil (Ali próximo à Buenos Aires, perto da Copel, na Pedro Taques).
A tal delegacia ficava a uma distância de 150 metros da Buenos Aires, nosso caminho para a escola. Ou seja, a não ser que um policial tivesse uma visão muito além do alcance, era impossível enxergar o letreiro em nossos braços. Mesmo assim colocávamos a mão sobre os escritos com medo de que algum policial visse e nos levasse pra cadeia. Esse fantasma, medo de sermos presos, nos acompanhou por um bom tempo. Sinceramente acreditávamos que uma atitude dessa fosse capaz de nos colocar no xilindró. Meu Deus, como eu adorava ser inocente.
Em toda a minha vida de criança apanhei bastante dos meus pais (A avó de vez em sempre não tinha pena e nem dó de ensaiar umas varadas). Apanhei bastante, mas bem menos que meus irmãos, diga-se de passagem. Claro, e a quantidade de letras a menos no nome não é responsável por isso. Mas ainda assim, acho que apanhei mais do que merecia. De cinta a fio de ferro de passar roupa, vara, de marmelo, chinelo, palmadas, uma infinidade de outros objetos punitivos conheceram em close, com coragem e vontade, minha pele e a de meus irmãos.
Pois é!!! Penso que estamos melhores preparados para lidar com nossos filhos hoje, que nossos pais, conosco, em nossa infância. Não estou dizendo que temos, em comparação com nossos pais, uma quantidade maior de amor. Não, com certeza, jamais conseguiremos estabelecer intensidades para o amor. Fomos infinitamente bem amados, além da conta até, por nossos pais e ainda somos. Temos sim, sem dúvida, como geração atual, muito mais compreensão e muito mais paciência no trato com os pequenos. Temos, em certo sentido, e nossos pais são os responsáveis por isso, pois nos formaram, um entendimento psicológico mais apurado e mais sensível em relação às nossas crianças. Hoje, as crianças não apanham tanto quanto minha geração teve seu couro esfolado em épocas idas. Lá no tempo de outrora, qualquer coisa o couro comia.
Apenas um vez dei uma palmada no bumbum do meu filhote, devido a uma manha insistente. E naquele momento não fiquei com um pingo de pena. Não me arrependo. Castigos de minutos? Já aplicamos alguns no menino. Mas, claro, tudo dentro do infinito amor que rege nossas vidas, pautado sempre na educação exemplar de civilidade e humanidade.
Dotado de grande senso de humor e alegria com a vida, decidido e bem resolvido, nosso filhote é a certeza de que estamos conduzindo essa dádiva que Deus nos concedeu, a mim e a minha esposa, ao caminho da decência, da postura correta, da ética e do respeito para com o próximo. Se antes, mais filhotinho ainda (hoje com sete aninhos), não necessitava de palmadas, muito menos hoje. Pela experiência de quem sentiu na pele os atos que impediam que o menino entregue a si mesmo viesse envergonhar os seus pais, posso afirmar categoricamente que um tapinha não dói, muito menos traumatiza e bem mais ensina.
Da Lei que está aí pra ser aprovada (ou não), de que os pais não poderão mais dar um tapinha em seus filhos, é preciso entender a diferença entre espancamento - a que infelizmente muitas crianças nesse país hipócrita estão sujeitas - e um simples tapinha para correção da manha...
Poupe a palmatória e estrague as crianças – A sabedoria popular é sábia.

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