Eu segurei aquela coisa diminuta e preta enquanto meu irmão, com uma tesoura, após passá-la ao fogo, decepou sua pequena cauda. Através de um ganido levemente estridente, a pequena criatura, recém nascida de uma ninhada de oito cãezinhos, o único totalmente preto, recebera como batismo, um nome que não tinha o seu tamanho: Negão. Poderia ser Neguinho que ainda era, pro seu tamanho, um nome muito grande. Após a extração do membro inferior traseiro, termômetro do estado de ânimo canino, o indefeso, posto de volta à ninhada, se encolhia triste - devia estar doendo, pois choramingava.
Após o recente casamento, já na casa nova, os dois integrantes da família que se iniciava, eu e minha esposa, esperavam a cegonha com o mais novo hóspede daquele novo ninho. O que não tardou. Meu irmão, aquele que não teve pena e nem dó em decepar a pequena cauda, como uma cegonha humana, nos entregou o pequeno Negão que, após dois meses do acontecido - já não era tão pequeno assim. O nome Negão já estava até combinando com o seu tamanho – o bebê se tornara um gigante de 45 centímetros, das patas ao lombo. A partir daí, passamos a ser três naquela casa.
Primeira noite no novo lar. Tudo preparado para dormirmos, o Negão lá fora em sua confortável casinha, forrada com seus paninhos e... ninguém conseguiu dormir. Quando digo ninguém, me refiro também aos vizinhos que, com certeza, até umas cinco quadras distantes de minha casa, não pregaram os olhos.
O urro - se aquele som emitido pelo gigante não era um urro, então o que já ouvira de leão, também não era. Era um urro indescritivelmente desesperador. Difícil acreditar que um som naquela gravidade e altura saísse de um cão. Negão queria companhia.
O escarcéu que aprontava era tamanho que, quem ouvia, penso que toda a vizinhança, com certeza acreditava que o cão estava sendo levado para um matadouro. O cachorro não parava de urrar, ganir e uivar desesperadamente. Parecia que o mundo estava acabando. Saltei da cama, abri a janela do quarto e ralhei com o Negão pra que ficasse quieto. O cão me encarava como se sorrisse. Eu sei que aquele sorriso era na verdade um sarrinho que ele estava tirando de mim. E, numa euforia danada, por me ver na janela, não se sentindo mais sozinho, gesticulava seu traseiro como se abanasse aquela parte ausente, que meu irmão... Então... Fechei a janela e, sentado na cama, esperei a segunda parte do espetáculo tétrico sonoro. Assim que começou, me levantei, abri a porta da sala e saí lá pro breu da noite onde estava a casinha do Negão. As luzes da igreja em frente a minha casa estavam todas apagadas. Negão veio para cima de mim, querendo brincar. Fiquei ali um pouquinho com ele, morrendo de sono, conversando e tentando acalmá-lo. Coloquei-o em sua casinha e o cobri com seus panos. Lhe fiz companhia pra ver se dormia. O que agente aprende com os bichos... Eles também precisam de carinho, atenção, afago na hora de dormir. Tudo isso Negão recebia. Eu não sabia era do tal boa noite. Ou seja, uma ninada de boa noite. Era o que estava faltando pro pequeno grande Negão, eu achava. Após um momento ninando o cão, o anjinho foi se acalmando, acalmando... Após uns minutos saí de mansinho, pé ante pé, entrei em casa, lavei as mãos e me deitei. A paz reinava naquele bairro, naquele momento. Já deitado, eu via apenas os olhos brilhantes de minha esposa no escuro que, claro, também tentava dormir. E assim, essa paz tão desejada, tão querida durou mais ou menos uns trinta segundos. O mundo lá fora começara a ruir novamente. Negão queria companhia...
No outro dia, dois zumbis se dirigiram aos seus trabalhos, cansados e sonolentos.
Interessante a vida de um casal novo. A presença de um cão alegra a vida em dois.
Mas, nem tudo é alegria com um animal de estimação. Por exemplo, até localizarmos a ração certa, e que não dava revertérios na barriga desse cachorro, o lavar e desinfetar a calçada já virara rotina. Todos os dias ao voltarmos do trabalho, encontrávamos a calçada com um caldo amarelo/ocre, que o desajustado cão alijava a cântaros. Inclusive, tinha o talento e a destreza do alijamento em ângulos de noventa graus - do jeito que a rajada batia no chão, respingava até o beiral do telhado. Após uma longa, diária e tenebrosa limpeza do ato diarréico nauseante, conseguimos a ração anti revertério. Recolher com uma pá, o produto que já saía compactado da fonte, não era tão complicado. Mas isso durava pouco tempo, pois o cachorro estranhava a nova ração e voltava a brincar de ângulos pelo quintal. A massa disforme e mole, quase um caldo, se encontrava esparramada pelo quintal todo. Era o tal do revertério. Haja vocação com pá e mangueira com jatos de água para cuidar de um cachorro grande.
Em alguns meses, Negão já se tornara um cão adulto. Mas, só tinha tamanho. Se era um gigante quando bebê, agora suas patas dianteiras já alcançavam meus ombros. Nessa posição, sua bocarra cheia de dentes afiados e pontiagudos emitia um hálito quente em meu rosto, que lambia-o com muita facilidade. Seu reluzente e negro pelo e seu porte esbelto, forte, davam-lhe um aspecto tenebroso, de meter medo. Retiramos muitas correspondências nas agências dos Correios, pois os carteiros não conseguiam se aproximar da caixinha. O mesmo acontecia para a leitura do relógio de água e energia. O cão não permitia ninguém próximo à grade do muro.
Um dia, voltando do trabalho, encontramos a casinha do Negão comida. Parcialmente comida. O cachorro roía a casa de um jeito que em menos de uma semana, tivemos que jogá-la fora e comprar outra. Lascas da casa eram encontradas em suas fezes. Lascas de até uns 4 centímetros. Até a porta o cachorro comeu parcialmente. Um imenso buraco estragou a porta. Quando nos mudamos de casa, tivemos que trocar a porta.
A alegria do cachorro na casa nova era um espetáculo pra ser visto. A casa, centralizada no quintal, permitia que Negão desse voltas ao seu redor. Aquilo era uma festa pro cachorro. Saíamos pro trabalho e Negão se tornava o rei do quintal. Com ele solto, nunca nos preocupamos com a casa, com bandidos, ladrõezinhos safados, pois a protegia muito bem. A exemplo dos carteiros e dos agentes de leitura da Sanepar e Copel, ninguém tinha coragem de se aproximar da grade da casa. De noite, Negão dormia no canil. Se ficasse solto não dormia e não deixava ninguém dormir, pois latia e urrava até pra uma mosca. O moleque cão adorava passear. Como todo cachorro acostumado a passear, era só pegar a sua guia que a euforia tomava conta do animal. Cegava a espumar de tanta excitação em saber que iria passear. Conhecia a palavra.
- Negão. Vamos passear? Pronto, estava feita a bagunça. O cachorro se desesperava.
Pra passear, sempre com guia trançada de nylon ultra resistente e enforcador. Pra segurança das outras pessoas na rua. Acho que seria um pessoa muito frustrada se esse cachorro mordesse alguém. Por isso todo cuidado era pouco.
Os momentos felizes que passamos com Negão são tantos e tão profundos que eu encheria páginas e páginas para relatar.
Após 9 meses nasceu o filhote. Não o filhote do Negão. O meu filhote. A presença de um bebê alegra a vida em dois. De alguma forma, todo o tempo dedicado ao Negão não era suficiente. Diminuíra, é verdade, pois o bebê estava tomando toda a atenção. Mesmo assim, claro, éramos atentos com nosso cão. Mas o bebê estava tomando toda a atenção.
Quando o filhote completou onze meses, nos mudamos para uma outra casa. Nesse momento, já tínhamos arrumado um outro cachorro pra fazer companhia ao Negão, Caramelo, um Cóquer Espanhol. Na casa nova, construímos um canil para abrigá-los.
Continuamos com os costumeiros passeios com Negão e Caramelo, eu e minha esposa.
De alguma forma, Negão não estava se adaptando à nova rotina. Na nova casa não dava pra deixá-lo solto. Ficava mais tempo no canil. Levávamos para seus passeios mas, quanto retornava, ia direto pro canil.
Por Deus. Nunca confiei em deixar Negão se aproximar do meu filhote. Não consegui vencer o medo, o receio. O máximo que fiz foi, com meu filho sentado no carrinho, segurava Negão com a guia pra que sentisse o cheiro do menino. Ele até me aparentava tranqüilidade. Mas não confiei. Ouvi muitas histórias de cães que atacaram crianças, idosos, enfim. Não consegui me desarmar dessa questão. Com isso, não permitia que Negão ficasse solto pelo quintal. Com o tempo, os esporádicos passeios não estavam sendo suficientes para a alegria do cão, que emagrecia e, de tanto roçar seu pelo no piso do canil, os cotovelos começaram a perder o pelo. Tinha um olhar triste. Aquela vida, aquela energia que o transformava de felicidade, não era mais notada. E eu não conseguia vencer o medo em deixar o cão solto com meu filho pelo quintal.
Alguns amigos souberam da nossa dificuldade e se prontificaram a ajudar. Descobriram uma pessoa, que morava no mesmo bairro, e que tinha interesse em um cão de guarda para sua chácara. Com o coração partido, aceitamos. Era um sábado a tarde. Acompanhamos o transporte do cachorro até a tal chácara. Lá, havia um pequeno canil. Deixamos Negão ali.
No outro dia, um domingo, logo de manhã, nos ligaram dizendo que Negão escapara do canil e o caseiro estava ilhado dentro de sua casa com a família, enquanto Negão, solto pelo imenso espaço, corria de um lado pro outro, latindo e escorraçando as galinhas do homem. Chegamos ao local e o proprietário, que já estava em frente ao portão da chácara disse não querer mais o cachorro. Levamos de volta para casa.
Tempos depois, mais um interessado no cachorro nos visitou. Buscamos informações de quem era essa pessoa. Soubemos se tratar de gente do bem. Combinamos como seria o processo de adoção. Todos os sábados, de manhã, ele ia até minha casa e aos poucos íamos colocando Negão em contato com ele, dentro do canil, ou preso na guia. Não preciso nem dizer que na primeira vez, Negão queria comê-lo vivo. Na segunda, também. Na terceira, na quarta... Até que, nem me recordo quantas vezes após, conseguimos deixar Negão solto. Meu amigo estava preso dentro de casa, tomando coragem para sair de encontro ao Negão. Eu, com o coração na mão, tomava todos os cuidados. Se esse cachorro avançasse sobre... eu não queria nem pensar na tragédia.
Não cheguei a comentar, mas, Negão já tinha a altura de setenta e cinco centímetros das patas ao lombo, sem contar a cabeça. O amor é audacioso, corajoso. Meu amigo já havia se afeiçoado ao cachorro e, sutilmente se aproximava da fera. Nesse dia, inventamos de brincar com uma bolinha de borracha, que Negão adorava. Eu chutava pro meu amigo, que chutava pra mim. O Negão no meio fazendo papel de bobinho, tentava pegar a bolinha. Ele só queria brincar. Meu amigo aproveitava, nas aproximadas do cachorro pra tentar pegar a bola, e passava a mão em seu reluzente pelo preto. E assim ficamos, chutava a bolinha pra lá, chutava pra cá. E o Negão só curtindo. Em um dado momento, meu filhote que estava dentro de casa, através da grade da janela, me chama. Vou ver o que quer. No momento que estou com meu filhote, meu amigo se abaixa pra pegar a bolinha de borracha. Em menos de um segundo, Negão salta sobre ele rosnando e latindo feito um louco ensandecido. A esperteza de meu amigo impediu que fosse mordido pelo cão. O cachorro, apoiado sobre as patas traseiras, estava de pé, mais alto que meu amigo, que agilmente se desvencilhava das investidas das navalhas da boca escancarada e espumante. Não sei de onde surgiu a agilidade com que me precipitei entre os dois. Do jeito que me coloquei entre a peleja, segurei Negão na altura de suas costelas e o arremessei uns três metros longe do digládio. Assim que caiu, do arremesso, se levantou e já ia retornar ao ataque quando, eu, entre ele e meu amigo, gritei.
- Negão! Esse grito tornou o cão estático. Imóvel. Ele me obedecia. Meu amigo atrás, pálido de terror, não emitia um som sequer.
Coloquei a guia no pescoço de Negão. O ocorrido não demoveu meu amigo do seu interesse pelo cachorro. Mas, a partir daí, decidiu que iria acelerar o processo da doação. Queria que o levássemos já para sua casa. Dizia ser a melhor forma do cachorro se acostumar com ele. Foi o que fizemos.
A casa onde Negão passou a morar por uns tempos antes de ser levado para uma chácara, tinha um excelente espaço em sua lateral que o permitia se locomover sem restrições. Visitei Negão nesse endereço três vezes em dois meses. Na última visita, como em todas, tive vontade de chorar de tanta tristeza ao ver meu amigo ali, vivendo longe de mim. Do lado de fora do quintal via-o em seu canil. Chamei seu nome. Ele olhava fixamente em meus olhos através de uma abertura no portão do canil.
Não sei o que sentia naquele momento, meu coração estava em mil pedaços. Era uma mistura de tudo, vazio, dor, tristeza, impotência... Depois desse dia, nunca mais vi o Negão. Sei que foi pra uma chácara. Não sei onde fica. Acredito do fundo do meu coração que está bem. Desejo isso com a minha vida. E, se a palavra for perdão, peço que me perdoe por não ter conseguido cuidar dele do jeito que imaginei que sempre cuidaria.
Passados oito anos desde que se foi do nosso convívio, a certeza que tenho em meu coração, é que não me arrependo de tê-lo enviado, pois acredito muito ter tomado a decisão mais certa em minha vida. Eu não conseguiria nunca me desarmar com meu Negão em relação ao meu filhote. Mas como dói...